quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O presente que sonho para São Paulo

(texto para a tradicional mudança anual do blog)

Aniversário de São Paulo e a tradicional época de demonstrar um pouco de amor a essa cidade.  E apesar de São Paulo não prestar, não ter amor, compaixão, beleza, carinho, paciência, gosto muito daqui. E não me canso de pensar como tudo poderia ser diferente.
Mas sei que as mudanças não acontecem de uma hora para outra. Aqui não tem mágica. Mas poderia começar por algum lugar e se eu desejo algo para essa cidade, queria ver o Parque Augusta inteiro, não retalhados em lotes, com dois prédios no meio.
Já temos grades, porteiros, controle remoto, crachás, câmeras de segurança, demais. Estamos saturados. Se for assim, não vai ser um parque. Apenas mais um desses lugares que ninguém entra sem um código de acesso. Um parque. Não mais uma catraca para gente passar sem olhar para os lados. Sem ver o outro, sem conviver. Um parque no meio da cidade. Perto do metrô, que permite o acesso de pessoas de todas as zonas. Um lugar para o skate, o Tai-chi, o piquenique, a caminhada, o namoro, o encontro, a passagem. Um parque aberto. Convivência.
Não seria lindo se ao invés das grandes imobiliárias, que já canibalizaram tanto essa cidade, de uma hora para outra, num momento de lucidez, disputassem entre si o direito de dar de presente para a cidade o parque? Como ele deve ser e como a gente merece? Top of Mind. Mas o prêmio não importaria, porque a vontade de retribuir, de ajudar na cura, de apenas fazer o que é direito e certo, fosse mais lucrativa do que qualquer outro empreendimento imobiliário com quartos, varanda gourmet e garagem com depósito,  pudesse render. Sei que sou uma idiota. Ingênua. Mas não custa sonhar.
Sabe o que mais me mágoa nessa história dos tantos espaços públicos roubados de São Paulo e dos paulistanos? As marginais. Eu não sei se você já parou para pensar: mas nós temos dois rios, dois, e simplesmente não podemos nos aproximar de suas margens. Apenas passamos por elas a 90 quilômetros por hora (se for de madrugada, no restante do tempo, com sorte a 10 quilômetros)  sempre dentro de um carro. E mesmo que o Tietê e o Pinheiros tivessem suas águas cristalinas, seria muito difícil chegar perto. Com risco de morte por infinitas causas: de atropelamento a contaminação por mercúrio. E isso dificilmente tem conserto. Jamais vamos fazer uma caminhada pelas margens do Rio Tietê. Isso soa tão absurdo que parece piada. Imagine que locação para um rolezinho?! Talvez essa palavra nem existisse. Porque os jovens da cidade teriam aonde ir durante as férias, o que fazer. Um espaço de lazer para o esporte, para a conversa, para qualquer coisa. E é enorme, perto de casa. Penha-Lapa/ Jaguaré-Interlagos. De ponta a ponta quilômetros de margens inteirinha para os paulistanos. E isso é mesmo só um sonho e uma grande pena. E o assunto aqui não é rolezinho. É o grande assalto que todos os paulistanos sofreram e nem se deram conta. Afinal quem vê valor em margem de rio? Será que o Parque Augusta vai repetir essa história? Tudo de novo, sem volta? Mais uma ferida aberta que não cicatriza, para a gente tratar? 
E se eu pudesse escrever a biografia não autorizada do Paulo Maluf, o título do livro seria: O homem que roubou as margens de dois rios. Além de todo o dinheiro, ele também tirou o nosso direito de simplesmente passear nas margens dos rios. Ele merece entrar para história assim, como um homem egoísta, sem visão, que não pensou no bem comum. Com suas marginais transitáveis, São Paulo seria bem diferente  Talvez até os rios estivessem limpos. Porque com gente perto, ficaria complicado jogar tanto lixo. De longe ninguém vê e fica por isso mesmo. Isso é muito triste e não tem solução. A gente já se ferrou tanto, e o resultado desse crescimento desordenado e tão corrompido está em todas as nossas vidas: na violência, no trânsito, no custo de vida, nas enchentes, na falta de luz, no estacionamento com vagas de ouro, na falta de lazer, no excesso de shoppings, de cancelas, de restrições, de distância. A gente merece muito mais do que um parque. Mas se isso é o que tem para hoje, seria muito bonito ganhar o Parque Augusta de presente. Feliz aniversário São Paulo.   

Um comentário:

Silvestre Gavinha disse...

Que lindo texto.
Patricia, falei que ia te procurar e achei. Sou aquela baixinha que compartilhou a viagem Roma/Sampa com tuas amigas. (O banco do avião, hehe)
Entrei na tua página do Face e já vou pedir para me adicionares. Mas não quero te incomodar, não. Não sou perseguidora. Sinta-se a vontade para não me aceitar.
Mas ser humano pensante é uma das minhas preferências, entre o que gosto na vida.
Adorei este teu texto.
Beijo krida.
Mariane