terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Sonho das misses

Dentre os costumes ocidentais, aquele que acho o mais ridículo são os concursos de miss. Uma mulher é esculpida a muita dieta, botox, chapinha e o que mais o valha para colocá-la dentro de um padrão considerado perfeito. Não só no corpo, mas também na atitude. Miss que é miss tem que ser “bela, recatada e do lar”. Tanto esforço para ganhar o título de a mais bonita e depois virar um vaso que acena enfeitando o mundo machista. Mas, existe uma única coisa na vida de miss que admiro: o seu maior sonho é a paz mundial. E eu sempre me pergunto como a mais essencial das necessidades de toda a humanidade pode ser tratada de maneira tão jocosa? Ou você conhece mais alguém que sai por aí respondendo que o seu maior sonho é a paz mundial? Não lembro!
Pois bem, depois de 2016, o ano do cão chupando manga no horóscopo tropicalista, vou me entupir da pieguice e da cafonice, própria das misses, para usar as palavras que se perderam em um discurso frívolo, e que deveriam ser engarrafadas e distribuídas em toda esquina: paz mundial, paz mundial, paz mundial!!! E todos nós, reles seres humanos, que não sabemos andar em um salto agulha, também podemos desejar do fundo do nosso coração a paz mundial. E podemos fazer mais pela paz mundial, a partir de nós mesmo. Avisei que ia ser piegas!
Mas, como se antes de tudo somos os irreparáveis, esquisitos e imperfeitos humanos? Mas como convencer quem tem o poder de apertar o botão vermelho que a paz mundial é mais importante que tudo? Mas como se há miséria, fome, guerras em nome de Deus, corrupção, muros, refugiados, e tanta gente dona de verdades absolutas derramando sangue, para defender suas verdades absolutas e todos nós sabemos que não existem verdades absolutas? Mas, como se antes da paz mundial (a mais importante das necessidades humanas) vem o dinheiro? Mas, como se quem tem, quer ter mais, tirando de quem não tem nada? Mas como? Mas como? Acho que é por isso que a vontade da paz mundial ficou na boca de mulheres sem discurso. É só mais uma bobagem, entre tantas!
Não tenho resposta. Quem dera tivesse!! Quem dera fosse fácil, rápido e possível! Já imaginei estratégias infalíveis e sempre paro na intervenção alienígena ou no meteoro. Mas eu sou brasileira: não desisto nunca e nem perco a esperança. Fui criada assim. O que fazer?
Então, mesmo parecendo ridícula, desejo que a paz mundial que há em mim, saúda a paz mundial que existe em cada um de nós. E que esse desejar cresça, em proporções nunca vistas e seja tão forte, que consiga transformar as pessoas que apertam os botões vermelhos da guerra em pessoas-flores, ou quem sabe em pessoas-beija-flor (bem brega, eu sei...). Seres incapazes de todo mal.
E, na diferença de todos nós, a paz mundial que saúda a paz mundial de cada um, preencha o corpo, a alma e o espírito com amor, carinho, ternura, respeito, tolerância, compreensão, compaixão, amizade, brincadeiras, risos, poesia, música, dança, cinema, séries, livros, sol, praia, cachoeira, rios, toda a natureza, vinho, cerveja, boa comida e tudo o mais que as pessoas-flores e a pessoas-beija-flor gostam e compartilham. Meu desejo para o Natal e para o Ano Novo.  

E termino 2016, o ano da girafa com ebola no horóscopo nórdico, com outra palavra de fundo ridículo, própria das misses: muito obrigada! Só posso agradecer. Muito. Sei o que foi bom e o que foi ruim, na verdade foram excelentes. Porque foram e aprendi (bem brega, eu sei...). Mas mesmo com tudo isso, além da paz mundial, também não posso deixar de falar: primeiramente, fora temer. 

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Precisamos falar sobre a não-ficção

Vamos imaginar que o audiovisual seja dividido em castas. A mais elevada de todas é o cinema. Logo abaixo, ocupando lugar que poderia ser dos sacerdotes, está o documentário. Embaixo, mas não menos pura, está a televisão quando ela faz dramaturgia, jornalismo não-sensacionalista e o esporte. Aqui também transita a casta da publicidade, algo equivalente ao lugar ocupado pelos banqueiros em outros mundos.
 E aí abaixo de tudo isso, equivalente aos parias e intocáveis, está uma casta ruidosa, espalhafatosa, sentimental, chorona, que adora piadas de duplo sentido e torta na cara, fofoqueira, desorganizada, cafona, que não dispensa um glitter e um dourado, adora cozinhar, decoração e viagem...  É a televisão que faz não-ficção/humor. É aí nesse mundo de diversidades que se encontram os realities, os programas de auditório, variedades, entretenimentos, jornalismo sensacionalista, humorísticos de gosto duvidoso, talk-shows entre outros tipos de programas.
Aí agora vamos imaginar que em um dia qualquer aconteceu uma festa intercastas, que terminou em uma grande orgia, onde ninguém era de ninguém, uma loucura e que depois de um tempo (sei lá quantos) nasceu os filhos desta noite fatídica: os vídeos de internet. No nascimento, considerados bastardos inglórios, cheios de defeito e de péssima qualidade. Mas os bastardinhos foram crescendo, crescendo e um dia (também não sei precisar a data) acordaram tipo uma Gisele, jogando o cabelo e pisando com salto agulha nas outras castas.
E agora com essa cara loira e bela, os membros das outras castas tem se apresentado para conquistar o bastardinho, tentando trazê-lo para o seio da família. Mas os rebeldes crescidos sem educação ou filtro, não estão nem aí e querem mais é curtir a vida sem se preocupar com a sua linhagem. E tem uma galera que se dá muito bem com os vídeos de internet. Eles se reconhecem na sua origem pobre e humilde, que são os parias da televisão de não-ficção/humor. Juntos parecem que eles estão mais fortes e interessantes do que seus “pais puros”. Podem se misturar, mas sobrevivem também sozinhos, cada um no seu mundo.
Com exceção da teledramaturgia, que encontrou seu espaço nessa zona, com as séries da Netflix e seus concorrentes, o resto ainda pena para colocar todo mundo na mesma mesa, se é que isso é possível. E é evidente que entre os mais sofredores está a publicidade. Às vezes dá pena de ver...
E o que mais tem me feito pensar nessa história é a grande dificuldade do mercado publicitário em fazer não-ficção audiovisual, seriada, com formato, contando uma história a partir de um formato para internet ou televisão para seus clientes. Cada vez que sento em uma reunião de agência e escuto as palavras “marca-storytelling-web série-viral” na mesma frase, eu penso: lá vem merda. Dificilmente eu me engano. É que agora os puros precisam se misturar aos parias, se quiserem de verdade criar conteúdo que tenha views, likes e principalmente compartilhamento. Pensar como antes, não vai levar a lugar algum. Os 30 segundos agonizam em coma. Mesmo que esse coma dure 100 anos.

A questão da não-ficção é tão séria que as vezes é muito difícil encontrar profissionais para trabalhar nos formatos. Ou eles estão ocupados ou não existem. Os Festivais ignoram e desprezam a não-ficção/humor. Cursos de não-ficção são raros, mesmo os que existem morrem logo por falta de aluno ou interesse. O Fundo Setorial e a Ancine também torcem seus narizes. Política de desenvolvimento para a não-ficção é pouca. Às vezes rebaixa nota de avaliação. Mas sabe qual é a real? No final do dia, na hora de fechar o caixa é justamente a não-ficção/humor que paga a conta, por ser mais barata, rápida de produzir e com resultados efetivos nesse brinquedinho caro chamado audiovisual.  

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Dá-se um jeito.

Hoje ouvi uma cara contando que estava puto porque teve que pagar uma indenização para uma funcionária que o tinha processado. Não sei que tipo de comércio é. Só sei que tem um caixa. A funcionária em questão tinha sido mandada embora por justa causa porque tinha roubado o caixa do patrão. Durante três meses. A câmera que ficava em cima do caixa estava desligada e então ele não podia provar. Porque se tentasse, iam descobrir que ele, de algum jeito que eu não entendi, mantém um esquema para alterar o caixa, caso a fiscalização passe. “É um jeito de fraudar”. Ele disse. Alto. Em bom som. Como se fosse a coisa mais comum do mundo. E na sequência o assunto andou para o lado da crise. E morte a não sei quem... Botar fogo não sei onde. Porque não sei quem falou na televisão que só vai piorar. É o que mais se escuta. Eu lembrei do Renato Russo: ninguém respeita a constituição, mas todos acreditam no futuro da nação. Que país é esse?  E a única coisa que eu tenho para responder é: não sei. Acho que ninguém sabe. Quem sou eu para responder? Mas, tenho a mais plena consciência que não existe uma resposta só e todas elas não são fáceis de ouvir ou realizar.
Ninguém respeita a constituição. Ninguém no nível geral da coisa. E tudo bem falar alto por aí. Pensei que talvez a gente não tenha noção clara entre o que é permitido por lei, e o que não é, além do básico “não matarás”. Aqui talvez seja o único lugar do mundo onde existe a expressão “essa lei não pegou”. Sempre me perguntei como pode isso? Se é lei. É lei. Mas... dá se um jeito. Dá-se um jeito pra tudo. O  brasileiro aprendeu a dar seus pulos tentando sobreviver.  Com certeza alguém já deve ter escrito sobre isso por aí, ao analisar o baixo nível da nossa educação.
Porém, todavia, contudo, então, chegamos a um momento que mostra claramente não ser mais possível continuar assim. Mas como mudar? Como quebrar a cadeia de vantagens e jeitos tão arraigados em nós? Todo mundo é assim? Sei lá!! Tem hora no Brasil que se você não der um jeito, simplesmente não acontece. Vencer o “sistema brasil” é uma batalha heroica que a gente vive diariamente. Serve de desculpas?? Sei lá!! A vida não é fácil.
Na nossa bandeira está escrito “ordem e progresso”. Nem preciso falar nada dessa frase, porque muito já foi dito,  além da piadas, memes, vídeos, fotos e fatos. Uma vez uma imagem chamou a minha atenção. No lugar do tão ambicioso “ordem e progresso”, um foda-se. Pergunte para qualquer brasileiro qual é o seu sonho? Casa própria? Só se for fora do país. Brasileiro bem-sucedido mora no exterior. Não é um julgamento de quem foi. Não, de jeito nenhum. É  só que se você quer abandonar, e é quase um sentimento-típico-brasileiro, foda-se. As pessoas carregam dentro do seu mais profundo eu um incansável chiado: “esse dia há de chegar, vou largar essa merda”. Cansei de ouvir.... ainda ouço.
Se todo mundo tomasse coragem, seríamos mais de 200 milhões de pessoas, que deixaram para trás 8.514.876 km², sendo que 7.408 km tem vista para o mar. Já pensou? Acho que aí então seríamos a nação mais feliz do mundo. Longe daqui. E o que aconteceria com todo esse pedaço de terra, na Terra? Acho que o resto do mundo encontraria espaço para agir da maneira como sempre viu o Brasil, e a gente se deixou ver, desde a invasão pelos portugueses: exploração das suas riquezas até que tudo sumisse e aqui então fosse engolido pelo Oceano Atlântico e esse “problema-chamado-brasil, enfim desapareceria. Sei que parece sinopse de filme. Total ficção, espero. Porque mesmo em um real apocalipse, isso não vai acontecer. Muita gente pode até ir embora. Mas outro número gigante vai ficar. Pelas mais diferentes razões. Eu vou ficar. Nem falo inglês. Sou tão desgraçada que a língua portuguesa é razão da minha vida. Moro aqui. É a minha casa. Na verdade de todo brasileiro. Eu sou uma pessoa estranha. Sou nacionalista. Vai entender? Gosto do Brasil, de ser brasileira, de morar aqui. Costumo olhar para suas coisas boas, para não esquecer que elas existem. Ultimamente parece que onde quer que você olhe, tem sempre algo te dizendo que aqui é o mais perto do inferno.  E eu sei que é difícil, mas não perdi o orgulho de ser brasileira. Não perdi e não vou perder. Por mais que essa nuvem-negra-entristecida-cansada-raivosa que paira no ar tente me roubar isso. A nação somos nós. Nós. Mais de 200 milhões de pessoas!!! Seria muito bom se a gente encontrasse um caminho para a nação. Longe, bem longe, da atual narrativa nós-eles. O que a gente precisa é saúde, educação, segurança, arte, comida, ciência, trabalho. É um direito nosso, de todo brasileiro. Quando é que vamos começar a discutir o Brasil de maneira clara, honesta e dentro da constituição, mesmo que tenhamos que enfrentar a verdade cruel e o trabalho imenso que precisa ser realizado por todos? Quando vamos começar a olhar para dentro do fundo do nosso coração?