quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O fim do grande amor

Nem me lembro de quando foi a primeira vez em que ouvi você... Faz muito tempo. Mas tenho certeza que antes de lhe ver, eu lhe ouvi. Com atenção. Deixei você entrar em mim. Deixe sem nenhum medo você invadir a minha alma e me tomar... Te amei. Dede de sempre. Fui sua. Sua Mulher de Atenas, passiva, amante. Calada. Em troca você foi comigo. Segurou na minha mão. Esteve comigo quando eu rastejava de dor. Você viu. Viu o meu avesso. Acreditei em você. Nunca duvidei. No dia em que confundi vodka com água, você viu meu vômito.  Quer intimidade maior do que essa? Qual??  Íntimos... caros... amigos... Eu fui ridícula, estabanada, perdida... Você... ali. Vivi com o combustível que seríamos futuros amantes. Vivi!!  Eu ri, eu chorei, eu gritei, eu engoli seco e... não escondi de você. Não sou uma pessoa de muitos relacionamentos, tenho uma certa inabilidade com esse assunto, e o pouco que sei: aprendi com você. E agora? Você... que vontade de chorar... muito. Ora por favor... não se proíbe livros!! Não se proíbe livros... nenhum... Cessa! Não me venha falar das leis, da moral, dos bons costumes, das verdades e das mentiras... do que é, e que ninguém pode saber!! Chega disso... não aguento... Simplesmente não se proíbe livros!! Se você parar um pouquinho para pensar... vai lembrar: em todas as formas de autoritarismo, a primeira providência é queimar os livros. Censurá-los, excomungá-los!! Não você... por favor. Você meu cavaleiro templário... não um monge medieval. Alguém precisa vir aqui e me dizer que tudo isso é mentira... Tô implorando!! Que dor...  Não se proíbe livros, nenhum... Depois de tudo que passamos, entre mim e você essa não era uma pergunta! Não! Era uma certeza: a nossa matéria-prima. Meu Deus! Te amei... tanto, tanto, tanto.  Agora... o que posso fazer? Vou lhe deixar a medida do Bonfim... não me valeu. E apesar de um grande amigo, talvez só o Pixinguinha não me baste! Vou trepar com o jazz e ferir o seu ciúmes! Vou... esse entorpecido, diabólico , mal falado e deslumbrante... tudo o que você já foi pra mim um dia!! Vou... muito!! Você vai ver! Mas fique tranquilo, bato o portão sem fazer absolutamente nenhum alarde... nenhum. Vou ser feliz e passar bem!! Quero ver como vai suportar me ver tão feliz!!  Quero!! Mas... não vou embora com a sensação de que já vou tarde... não... Fui surpreendida... traída! Você... não se proíbe livros... nenhum. Sempre soube que você acreditava nisso.... Você... Oh pedaço arrancado de mim... Oh, metade amputada de mim, leva o que há de ti, que a saudade dói latejada, é assim como uma fisgada, no membro que já perdi... Adeus. 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Paixão segundo GH

trechos que me dizem muito.

"O que os outros recebem de mim reflete-se então de volta para mim, e forma a atmosfera do que se chama: eu. O pré-climax foi talvez até agora a minha existência. A outra - a incógnita e anônima -, essa outra minha existência que era apenas profunda, era o que provavelmente me dava a segurança de quem tem sempre na cozinha uma chaleira em fogo baixo: para o que desse e viesse, eu teria a qualquer momento água fervendo."

"Da-me tua mão desconhecida, que a vida está me doendo, e não sei como falar - a realidade é delicada demais, só a realidade é delicada, minha irrealidade e minha imaginação são mais pesadas."

"Todo caso de loucura é que alguma coisa voltou. Os possessos, eles não são possuídos pelo que vem, mas pelo que volta. As vezes a vida volta. Se em mim tudo se quebrava à passagem da força, não é porque a função desta era a de quebrar: ela só precisa enfim passar pois já se tornara caudalosa demais para poder se conter ou contornar - ao passar cobria tudo."

"E a mim - quem me quereria hoje? quem é que ficara tão mudo quanto eu? quem, como eu, estava chamando o medo de amor? e querer, de amor? e precisar, de amor? Quem, como eu, sabia que nunca havia mudado de forma desde o tempo em que haviam desenhado na pedra de uma caverna? e ao lado de um homem e de um cachorro."

segunda-feira, 4 de março de 2013

Não vou comemorar o dia da mulher

Neste ano de 2013, o dia Internacional da Mulher cai, como é de costume, no dia 08 de março... Homenagens, campanhas, promoções, descontos, flores, bombons, presentes... e toda uma série de "coisas" vão neste dia ganhar a conotação especial de reverenciar o sexo feminino. Não contem comigo para isto... no máximo o que farei é uma longa oração para que a mulher que apanhar neste dia, e isto acontece com uma mulher no mundo a cada segundo todos os dias, consiga de alguma forma se libertar. Vou pedir que a dor causada pelo ácido jogado na face de uma alma já dilacerada, não arda tanto... Vou rezar para que o filho ao ver a dor da própria mãe humilhada, quebrada, violentada, não perpetue esta atitude também com a sua mulher e filhas, quando formar uma família... já que foi educado para isto. Vou implorar para que a filha não pense que também precisa ser o objeto de um homem, ao ver toda a geração de mulheres da sua família sendo estuprada por aqueles que deveriam ser apenas família. Vou pedir que a menina de apenas 9 anos, violentada dentro do seu próprio quarto, lugar em que deveria se sentir segura, receba amparo para conseguir viver com dignidade mesmo tendo a infância roubada. Vou também, neste dia 08, pensar em todas as mulheres que levantam da cama antes do sol nascer e vão para o trabalho, deixando seus filhos sozinhos e rezando muito para que nada de ruim aconteça e que no fim do dia, o pão que elas lutam tanto para conquistar, possa ser repartido por todos na mesa. Vou pedir para que todas as mulheres abandonadas grávidas e que não servem mais para o tesão, consigam forças para educar seus filhos com um mínimo de dignidade. E que estes filhos possam retribuir o amor de suas mães, sem violência e drogas... Vou querer que por apenas um dia nenhuma imagem de mulher seja retocada no photoshop e esta escravidão do corpo não roube a inteligência e a vontade de se educar das adolescentes de todo o mundo, que passam horas tentando ser aquilo que não podem. Gostaria que nenhum homem louco de ciúmes matasse a mulher que julga amar, mas que na verdade não tem nenhum outro sentimento além de um orgulho ferido. Vou pedir para todas as mulheres do mundo estudarem. Assim como quis a menina de 15 anos que sonhava em ser médica e que foi atacada pelo Talibã. Vou pedir também para que elas trabalhem as mesmas horas do homens e ganhem a mesma coisa. Hoje as mulheres trabalham mais horas e ganham menos. Vou implorar muito para que nenhuma mulher precise andar de ônibus na Índia. O dia 8 não significa nada se nos 364 dias seguintes de tantos séculos, para frente e pra trás na história da humanidade a vida das mulheres continuar a ser marcada por tanta violência e desigualdade. Não há o que comemorar.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A vida é muito curta para morar em São Paulo


Quando eu vi esta frase pensei: é verdade. Depois deste primeiro impulso, meu coração se encheu de tristeza em constatar a que ponto esta cidade chegou. Costumo dizer que uma pessoa é mesmo paulistana quando ela alimenta o desejo de deixar São Paulo. Quase todas as pessoas que moram aqui, tem a mais absoluta certeza que seriam muito mais felizes em outro lugar.... E por quê?
É o trânsito? É a pressa? É a chuva e a garoa que não param? É a violência? Os preços absurdamente caros de tudo? O jeito sisudo da moça no metrô? Pode ser tudo isto... Afinal se tem uma coisa que São Paulo consegue fazer pelos seres humanos que se atrevem a viver aqui é endurecer seus corações... É preciso. Tem  que ser esperto, alerta, tomar cuidado...
O medo assombra em cada farol, em cada esquina... na madrugada, em qualquer lugar.
Tudo é cinza. Tudo é longe. Tudo é feio.
Mas será que São Paulo pode ser reduzida dessa maneira? Acho que não... sinceramente acho que este sentimento de abandono eminente pela cidade é alimentado por esta política perversa que não pensa na convivência e sim no toma-lá-dá-cá e no levar vantagens em tudo. Se você quer ir embora, então por que pedir melhorias? Se você quer ir embora por que cuidar? Não tem sentido....
Eu adoro São Paulo, mas estou sendo vencida por tantas dificuldades urbanas... e a minha vontade de ir  está crescendo.... lamento. Se vou de verdade tomar esta decisão? Confesso que me falta coragem... pelo jeito vou manter este casamento ruim.
Vou alimentar o sonho de ver esta cidade do jeito que ela deve ser. Com transporte público descente, para todos, confortável, que a violência seja diminuída, que todos os bairros, de todas as zonas mereçam o mesmo tratamento, que a gente possa conviver. Sonho com uma São Paulo mais amiga e menos perversa. Parabéns sua filha de uma puta que gosto tanto!!
Se a vida é muito curta, então na verdade não temos mais tempo, estamos atrasados. E não adianta só esperar o poder público... porque este já provou que gosta mesmo do prestígio, do poder, do dinheiro que corre como água para poucos, que inebriados por estas pequenas coisas esquecem do que importa.