sexta-feira, 25 de setembro de 2015

A sagrada família

Aconteceu que depois de quatro anos, Soraia, que é bióloga, tinha conseguido finalmente entregar a sua tese de doutorado. Não tinha sido fácil principalmente quando precisou adaptar o tema, para as exigências do laboratório de estudos do genoma humano. Ninguém entendia muito bem o que a Soraia fazia. Só que era uma coisa difícil. Naquele dia, Marte, seu regente estava no alto do céu e Vênus em harmonia com Saturno, faziam tudo ter um ar auspicioso, como falou quando ligou para a sua esposa, a Marcela. Elas combinaram de mais tarde encontrar os amigos para uma cerveja e quem sabe aproveitar para ficarem mais próximas. Não estavam bem. A analista financeira, a Marcela, trabalhava muito. E justo naquele dia, Vênus e Saturno se desentenderam para ela. Apareceu uma diferença nas contas do banco onde trabalhava e ela não podia arredar o pé dali, até descobrir onde estava o dinheiro. Soraia ficou brava. De novo a mesma história. Tomou uma cerveja belga a mais, com 18% por cento de álcool. Precisou ir ao banheiro e na saída encontrou o Dudu na porta. E não se sabe ao certo se foi a quarta cerveja belga, Vênus ou Saturno, ou algo engraçado que ele falou e ela riu, voltaram para dentro do banheiro. Trancaram a porta. Soraia esqueceu de Dudu no dia seguinte, mas no fim do mês os enjoos, o atraso na menstruação e “aquele maldito exame de farmácia” comprovaram: estava grávida. Esperou até as duas da manhã, daquele dia em que esqueceu de ler o horóscopo e contou para Marcela. A analista financeira olhou para o relógio e disse a si mesmo que uma mãe de família não poderia chegar em casa àquela hora. E sem querer sentiu-se mãe. Depois quis saber do pai.
– O  Dudu é só um amigo.
- Mas ele precisa saber.
Marcela também quis saber se Soraia amava o Dudu, se ela ia sair de casa, se ia ter a criança. Bom, nada disso aconteceu. O Pedro nasceu com duas mães e um pai. Marcela que odiava o trabalho no banco saiu e abriu uma floricultura. Soraia foi trabalhar em outro laboratório. Trabalhava muito e ainda dava aula na pós-graduação da faculdade. Marcela cuidava do Pedro. Mas Dudu achava que o menino estava muito mimado. E resolveu dar um jeito naquela história: adotou um cachorro. O Pedro, amou o Betoneira, o cachorro. Soraia não ligou muito. Mas todo mundo teve a certeza que Marcela ficou com ciúmes do cachorro. É claro que ela não ia admitir. No domingo, no parque resolveu provar que estava acima desses comentários maldosos daquela família: pediu ao moço do cachorro-quente para tirar uma foto dos cinco e fez questão de segurar o Betoneira no colo. Prometeu a si mesma imprimir aquela foto e colocar na sala de casa.
D.Else tinha três filhos. Duas meninas e um menino. A Márcia era a mais velha, o Naldinho o do meio e a Juliana a mais nova. Seo Ermírio, antes de morrer, vivia chamando a Ju da sua filha prafrentex.  É que a Ju adorava viajar. Antes dos 24 anos, já tinha ido duas vezes para a África e perdido as contas das vezes em que esteve na Europa. Naquele tempo, Ju  estava na Nova Zelândia e Márcia, a advogada, ficou brava com a irmã que não se deu ao trabalho de voltar para o casamento do irmão. Naldinho fez uma cerimônia tão bonita. O pai já não estava presente. Custava ter voltado? Mas a Ju não voltou. Só chegou ao Brasil alguns meses depois e grávida de cinco meses. Não quis falar quem era o pai “pouco importa”. Prometeu fincar raízes para cuidar da Gisele. Márcia, que era louca por sapato, antes da sobrinha nascer já tinha comprado quase todos os tipos que uma criança pode usar. Quando Gisele nasceu tinha botinha, tênis da Nike, sapatilha de lacinho.... A Juliana achava tudo aquilo uma bobagem. Mas, resolveu deixar pra lá. A irmã ajudava com o dinheiro e cuidava da filha. Mas era D. Else quem ficava a maior parte do tempo com a menina. A Ju passou a trabalhar das nove as seis e não conseguia tirar da cara a expressão de “passarinho preso na gaiola” que D. Else tanto lhe pedia. A Marcia colocou a Gisele no balé e as irmãs brigaram. Mas a Gi quis continuar. A Marcia foi promovida no trabalho e para comemorar resolveu comprar para cada uma um sapato. Podiam escolher. D. Else ficou com uma sandália ortopédica, que seu joanete tanto pedia. A Gisele não se conformava que não podia ganhar uma sandália de salto. Mas nesta questão tanto Márcia, quanto Ju concordavam: criança não pode. Gi achou injusto, mas nem adiantou olhar para a avó. Ju escolheu a bota de caminhada que custava uma fortuna: vulcanizada, impermeável e leve. Não se sabe se foi a bota, mas logo depois, a Ju foi chamada para trabalhar novamente na Nova Zelândia, para ser guia em um parque e ajudar estudantes brasileiros. Até a Gi concordou que a mãe era muito infeliz. As duas combinaram que quando Gi soubesse se virar ela ia encontrar com a mãe. Marcia ficou com a guarda da sobrinha. Aquilo deu uma alegria tão grande na advogada que ela comprou uma sandália Jimmy Choo para dar de presente no aniversário de 15 anos da Gisele.  No aeroporto, dessa vez D.Else não chorou, mas prometeu a si mesma que jamais ia ensinar a neta “a se virar”. Na despedida, fizeram uma foto da família para recordação. A moça que passava não entendeu nada. Elas pediram para que fotografasse apenas os pés das quatro mulheres: uma sandália ortopédica, uma sapatilha injusta, um ankle boot de salto alto e uma bota de caminhada.
O Júlio se apaixonou pela Roberta de tal maneira que não se importou com a sua tristeza, a mania de não comer direito e achar que estava sempre gorda. Por um tempo, os dois foram felizes. Júlio não era muito de namorar. O violoncelo e a orquestra municipal tomavam todo o seu tempo. Seus pais, Vera e Ricardo, ficaram felizes de ver o filho saindo, não mais enfurnado em casa, sozinho sem se divertir. Fizeram planos para um casamento. Roberta acabou ficando grávida sem querer. Ela não queria engordar, passou a maior parte da gravidez triste e inconformada. Como muita sorte, Miguel nasceu saudável.
- Aquela desmiolada vai matar meu neto. – Vera estava muito preocupada.
Na saída da maternidade, Miguel foi direto para a casa de Vera. Júlio, ficou muito aliviado, não sabia o que fazer. Queria compor uma música para o filho e Roberta só pensava em emagrecer. Vera e Ricardo cuidaram do Miguel e quando Roberta resolveu mesmo ir embora,  Ricardo construiu um forte-apache para o neto no quintal. A criançada da rua não saia de lá. Como Júlio passava a maior parte do tempo em turnê  com a orquestra, pra facilitar deixou Ricardo com a guarda de Miguel. E no dia de pegar os documentos no cartório,  eles tiraram uma foto da família. Miguel estava vestido de índio. Finalmente convenceu a avó a costurar a roupa que ele tanto queria. Conseguiu que a avó também fizesse uma para o seu melhor amigo, o Carlinhos. E agora que o Miguel foi estudar na Austrália...
– Precisa ser tão longe? – Ricardo se perguntava

Passava as tardes dentro do Fort Apache, com saudades do filho-neto, da esposa falecida e do filho distante. E que Deus abençoe essas e tantas outras Sagradas Famílias. Na luz do Nosso Senhor Jesus Cristo, Amém. 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Cúmplices

(Ficção. Algumas semelhanças com a realidade, mas bem poucas. Identidades preservadas pela própria dignidade da pessoa)
Domingo, perto da meia-noite recebo uma mensagem da distante Inglaterra no celular: “está vendo o Sportv? Campeonato Mundial de Patinação Artística”. Sem lembrar da entediante segunda-feira que se aproxima, pulo da cama desesperada e só consigo pensar no que perdi. Rapidamente, pelo celular, da distante Inglaterra, da terra onde as pessoas fazem mestrado, recebo as atualizações das últimas apresentações, com detalhes nas notas... E aí então entro no reconforte mundo dos saltos-e-piruetas-com-babados-no-gelo. Feliz é aquele que tem uma amiga para dividir o amor pela patinação. Mais feliz ainda é quem tem um amiga para compartilhar suas impressões sobre outro derivado dos pulos-com-fru-fru: filmes de patinação. Afinal são poucas as pessoas no mundo que vão soltar um suspiro ao ouvir: “Um casal quase perfeito”. Clássico... até hoje insuperável...(Disney, me desculpe mas Sonhos no Gelo nunca será “Um casal..., talvez se comparamos com Um casal quase perfeito três (existe!))... Enfim, isso é mais que uma amizade. É quase como ser cúmplice em um crime.
Mais difícil do que encontrar alguém para falar sobre patinação artística, é aguentar sozinha o preconceito por gostar de Alcione. Mas eu não passo por isso... D, assim como eu, também é fã da Marrom (mesmo quando ela aparece vestida de cereja). E podemos compartilhar o momento de cantar (dentro do carro é claro), fazendo um dueto, “garoto, maroto, travesso....”, É  uma alegria inexplicável.... Mas é tão difícil sair desse armário, o risco de bullying é aterrorizador...
L,  divide comigo o amor pelas fontes... e alguma cascatas. Acho lindo. Como L é arquiteta, a gente sonha ganhar na loteria, só para construir uma casa com uma grande, esquisita e chamativa “fonte-elefante”. A título de curiosidade, elefante em casa dá sorte... Enquanto a grana da loteria não vem, ficam espalhados pela casa elefantinhos-de-bisquit-com-espelhinhos-colados... E o ridículo de tudo isso toma horas e horas de boas conversas... principalmente se tiver cerveja no meio. Mas a gente sempre concorda que fonte de respeito é a “Casa da Pedra” do Frank Lloyd...
J, Outra parceira da clandestinidade, é uma pessoa respeitada, principalmente quando o assunto é economia e investimento, que mantém em segredo uma coleção respeitável de Júlia e Sabrina... antigas. “Que delícia para zerar o QI.”... costuma dizer, se desculpando por esse amor bandido.  E por considerar “o torso nu do Capitão Walker, protegendo finalmente Lisa.”, quase Joyce... Sonho um dia escrever um livro desses, e me divirto procurando pseudônimos... Chegamos à conclusão que Dolores Ruas é uma boa opção. Ainda não achei um bom nome para o meu capitão... claro que precisa ser uma história na praia. São os nossos preferidos.... E é melhor eu parar por aqui para não piorar, ou colocar em risco a cumplicidade... São gostos que não tem explicação. Ou lógica. São gostos-duvidosos que brotam de um desastre químico do cérebro. Acontece, sem que se possa fazer nada, com muita gente e é involuntário. Talvez isso explique o ditado  “sapo não anda com cobra”... tem sempre alguém por aí para compartilhar o seu lado Z...



quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Reply na caixa de spam

Caro Zig, sei que a gente já se conhece há algum tempo. Estou acostumada a receber suas mensagens quase todo dia. Sinto que nossa relação tem um “lance”, mas eu não sei se ela é sólida o suficiente para que a gente comece a partilhar as nossas finanças. Tenho muitas dúvidas... Por isso ainda não decidi te mandar meus dados bancários e as minhas senhas. Sei que você já se irritou profundamente com a minha negativa e já tentou pegar na marra. Mas acho que deve ter passado, você continua me escrevendo. Mas dinheiro não é bom para nenhuma relação, atrapalha e além do mais prefiro pensar que você gosta de mim como pessoa, a nível de ser humano, não apenas como uma senha. Bjss e até amanhã.

Fê_molhadinha, querida olha entendo a sua tentativa de provocar em mim sentimentos e paixões até então imagináveis, mas assistindo aos vídeos que me mandou (vi só metade porque não pude colocar o número do meu cartão crédito para ver o resto), acho que sou muito careta para você. É sou... desculpa, mas tenho a sensação que se entrar na sua posso não chegar viva ao final da tal noite de loucuras que você promete. Por favor, não pense que acho você uma assassina, tenho certeza da sua paixão por mim, jamais duvidei, é que sinto não ter preparo físico para aguentar até o final. E... preciso te dizer uma coisa: aquele seu amigo vestido de diabinho, me dá muita vontade de rir. Já te disse também que tenho problemas com peito... não gosto muito. Então, vamos parar por aqui. Não sofra, vai ser melhor para nós duas. O tempo nos dirá. Beijos.

Menino_da_porteira, vou ser direta com você: não vou na sua festa! Por favor, não se sinta ofendido. É que o meu conhecimento de sertanejo para em “Fogão à Lenha” com Chitãozinho e Xororó e sei a letra de “Entre tapas e beijos”. Mas, pelo que você descreve, o seu evento é bem mais moderno, já que o som é o “mais puro sertanejo universitário”... Sinceramente, também não consigo me imaginar na “grande fila de cowboys e cowgirls gastando a sola da bota até o sol raiá.” Amigo, se você estiver a fim de um cinema, um jantarzinho, ficar na fila da paleta mexicana, me escreve. A gente marca. Bjss.

Mirella, não tenho interesse em comprar “pó de Goji Vita para emagrecer”. Admiro a Ivete Sangalo por ela usar, mas não é para mim. Obrigada.

Padre Moa, obrigada pelas suas orações e sermões. Mas como o senhor exige seguir as riscas os mandamentos da Santa Igreja Católica, não tenho condições de ser sua seguidora. Por favor veja o outro e.mail que lhe mandei falando o que penso sobre família, todo tipo de família, contracepção e divórcio. Atenciosamente.

Lúcifer, nesse momento não tenho interesse em participar de nenhuma seita satânica. Pela sua insistência tive que te bloquear. Espero que entenda. Sem ressentimentos.

Lulu, adorei suas flores de biju! Pena que seu site está fora do ar. Da próxima eu compro. Parabéns pelo seu trabalho. Bjss

(depois eu continuo faltam só 1093 mensagens) 

sábado, 3 de janeiro de 2015

Cara nova, problema velho

Percebi que ano passado, em 2014, escrevi apenas um post. O ano inteiro e eu me dei ao trabalho de escrever apenas uma vez. Péssimo. Isso sim é um abandono. Estou cumprindo tabela ao mudar o visual do blog, como faço todos os anos, apenas para manter a tradição e o meu canto particular na internet. É como um paulista que tem um terreno na Bahia, sonhando com o dia em que vai conseguir finalmente largar tudo e morar lá. Por enquanto é apenas um pedaço de terra cercado. O exemplo se aplica muito ao blog. Um dia sonho em alimentá-lo com muitos textos, conteúdo interessantes e que tocar o coração das pessoas. Um dia... quem sabe quando eu me aposentar da vida corrida que levo... um dia quando não passar 12 horas sentada na frente do computador escrevendo. Um dia quando tiver tempo para pesquisar temas e achar, todo santo dia, algo relevante para postar. Um dia... quem sabe... talvez. Por enquanto o que posso oferecer é apenas a manutenção da cerca. Tenho o projeto construído na minha cabeça: um blog que fale de cinema, livros, arte, cultura, comportamento... os temas pelos quais me interesso. Vou ler um livro e resenhá-lo aqui... por enquanto eu mal termino de ler os livros que começo. Assisto muitos filmes ainda... mas não consigo escrever sobre todos. Bem que gostaria... comentar as séries que acompanho... o que penso sobre cultura. A gente tem sempre tanta coisa pra compartilhar, tanta coisa na cabeça... e só coloca para fora na mesa do bar, lamentando com os amigos o tempo. Esse senhor destemido e atrevido, que não se dá o trabalho de parar um minuto para que eu posso realizar esse sonho. Então para concluir a culpa não é minha... é o do tempo. Já estou entrando em contato com os meus advogados para ver o que podemos fazer para processá-lo. Um dia quando ele for julgado... um dia... vou pedir de volta o tempo perdido e prometo usar a indenização toda aqui. Até daqui a pouco quem sabe...