segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Arte Pelada

Não estranho o fato de que em pouco tempo duas polêmicas envolvendo arte e artistas estejam no centro das discussões. Todas elas infrutíferas, quase esdrúxulas e acima de tudo muito ignorante. Mas eu tenho me perguntado o que é que está por trás desta guerra? É trata-se de uma guerra.  E para mim a resposta é muito fácil... Enquanto o discurso se inflama por todos os lados, e no calor da emoção onde de tudo um pouco é dito, vai assim como quem não quer nada emergindo o já conhecido discurso de que todo artista é maluco, de que a arte não serve para nada e que tudo isso é perda de tempo, coisa de gente desocupada, que deveria tá pegando em uma enxada ou apertando botão em algum lugar mais decente. Afinal o que é um quadro ou uma música diante da fome? Ou o que é uma peça de teatro diante do desemprego? O que é um homem pelado em um Museu de Arte Moderna diante da violência? Nada! Desnecessário, absolutamente desnecessário. Morram estes vermes! Todos eles!! Tirem o sustento destes malucos que não fazem nada que presta. E aí enquanto se grita bem alto tudo isso e mais um pouco, a verdadeira ação de interesse do capital e do pensamento neoliberal se opera. Como? Alguns exemplos: O que é mais “atentado ao pudor”, o homem pelado ou a extinção das Orquestras Sinfônicas no Estado de São Paulo. Artistas! Que vá procurar algo mais importante pra fazer do que ficar por aí tocando piano com o meu dinheiro. (e enquanto não há mais orquestra pra tocar de graça no parque, A Sinfônica de Berlim vem ao Brasil e só quem pagar $$$$$ pode ver, ou seja, os mesmos que extinguiram a orquestra. Você não pode, mas eles sim). O que é mais pornográfico? A exposição que discute as diversas manifestações de gênero (to vendo a hora que um brasileiro vai atacar o Davi) Ou o fechamento sistemático das bibliotecas no Brasil e o encerramento por parte do desgoverno T@#@#@%& da distribuição de livros paradidáticos às escolas brasileiras. Programa que existe desde 97 e que o vampiro encerrou. Afinal pra que servem os livros? Acaba! Ninguém tem que ler nada! Escritores e leitores são desocupados. Vão lavar uma roupa ou apertar um botão em algum lugar mais decente! O que é mais pornográfico? O desmantelamento da arte e da cultura precisa de justificativa mesmo para quem não está nem aí pra mim ou pra vc. E nada melhor do que construir um discurso que a torna “coisa de maluco”. A arte e a cultura não são apenas uma exposição. Mas enquanto gritamos e fechamos os olhos, o verdadeiro crime se dá na nossa frente sem que ninguém se dê conta. A arte, a cultura e a educação estão sendo roubadas e desconstruídas de todos nós pelo governo, com a desculpa de economizar dinheiro ou colocar em algo mais produtivo, como um apartamento clandestino em Salvador. O verdadeiro atentado ao pudor não chama atenção porque ele é feito e apoiado por essa “gente de bem que odeia”. Mas, procurando esperança depois da idade média, sempre vem a renascença. E a resistência a “gente de bem que odeia” seguirá arte. Nas escolas, nas ruas, na chuva, na fazenda... Não vão matar a arte, por mais que tentem. Não são os primeiros a tentar, nem serão os últimos. 

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Sonho das misses

Dentre os costumes ocidentais, aquele que acho o mais ridículo são os concursos de miss. Uma mulher é esculpida a muita dieta, botox, chapinha e o que mais o valha para colocá-la dentro de um padrão considerado perfeito. Não só no corpo, mas também na atitude. Miss que é miss tem que ser “bela, recatada e do lar”. Tanto esforço para ganhar o título de a mais bonita e depois virar um vaso que acena enfeitando o mundo machista. Mas, existe uma única coisa na vida de miss que admiro: o seu maior sonho é a paz mundial. E eu sempre me pergunto como a mais essencial das necessidades de toda a humanidade pode ser tratada de maneira tão jocosa? Ou você conhece mais alguém que sai por aí respondendo que o seu maior sonho é a paz mundial? Não lembro!
Pois bem, depois de 2016, o ano do cão chupando manga no horóscopo tropicalista, vou me entupir da pieguice e da cafonice, própria das misses, para usar as palavras que se perderam em um discurso frívolo, e que deveriam ser engarrafadas e distribuídas em toda esquina: paz mundial, paz mundial, paz mundial!!! E todos nós, reles seres humanos, que não sabemos andar em um salto agulha, também podemos desejar do fundo do nosso coração a paz mundial. E podemos fazer mais pela paz mundial, a partir de nós mesmo. Avisei que ia ser piegas!
Mas, como se antes de tudo somos os irreparáveis, esquisitos e imperfeitos humanos? Mas como convencer quem tem o poder de apertar o botão vermelho que a paz mundial é mais importante que tudo? Mas como se há miséria, fome, guerras em nome de Deus, corrupção, muros, refugiados, e tanta gente dona de verdades absolutas derramando sangue, para defender suas verdades absolutas e todos nós sabemos que não existem verdades absolutas? Mas, como se antes da paz mundial (a mais importante das necessidades humanas) vem o dinheiro? Mas, como se quem tem, quer ter mais, tirando de quem não tem nada? Mas como? Mas como? Acho que é por isso que a vontade da paz mundial ficou na boca de mulheres sem discurso. É só mais uma bobagem, entre tantas!
Não tenho resposta. Quem dera tivesse!! Quem dera fosse fácil, rápido e possível! Já imaginei estratégias infalíveis e sempre paro na intervenção alienígena ou no meteoro. Mas eu sou brasileira: não desisto nunca e nem perco a esperança. Fui criada assim. O que fazer?
Então, mesmo parecendo ridícula, desejo que a paz mundial que há em mim, saúda a paz mundial que existe em cada um de nós. E que esse desejar cresça, em proporções nunca vistas e seja tão forte, que consiga transformar as pessoas que apertam os botões vermelhos da guerra em pessoas-flores, ou quem sabe em pessoas-beija-flor (bem brega, eu sei...). Seres incapazes de todo mal.
E, na diferença de todos nós, a paz mundial que saúda a paz mundial de cada um, preencha o corpo, a alma e o espírito com amor, carinho, ternura, respeito, tolerância, compreensão, compaixão, amizade, brincadeiras, risos, poesia, música, dança, cinema, séries, livros, sol, praia, cachoeira, rios, toda a natureza, vinho, cerveja, boa comida e tudo o mais que as pessoas-flores e a pessoas-beija-flor gostam e compartilham. Meu desejo para o Natal e para o Ano Novo.  

E termino 2016, o ano da girafa com ebola no horóscopo nórdico, com outra palavra de fundo ridículo, própria das misses: muito obrigada! Só posso agradecer. Muito. Sei o que foi bom e o que foi ruim, na verdade foram excelentes. Porque foram e aprendi (bem brega, eu sei...). Mas mesmo com tudo isso, além da paz mundial, também não posso deixar de falar: primeiramente, fora temer. 

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Precisamos falar sobre a não-ficção

Vamos imaginar que o audiovisual seja dividido em castas. A mais elevada de todas é o cinema. Logo abaixo, ocupando lugar que poderia ser dos sacerdotes, está o documentário. Embaixo, mas não menos pura, está a televisão quando ela faz dramaturgia, jornalismo não-sensacionalista e o esporte. Aqui também transita a casta da publicidade, algo equivalente ao lugar ocupado pelos banqueiros em outros mundos.
 E aí abaixo de tudo isso, equivalente aos parias e intocáveis, está uma casta ruidosa, espalhafatosa, sentimental, chorona, que adora piadas de duplo sentido e torta na cara, fofoqueira, desorganizada, cafona, que não dispensa um glitter e um dourado, adora cozinhar, decoração e viagem...  É a televisão que faz não-ficção/humor. É aí nesse mundo de diversidades que se encontram os realities, os programas de auditório, variedades, entretenimentos, jornalismo sensacionalista, humorísticos de gosto duvidoso, talk-shows entre outros tipos de programas.
Aí agora vamos imaginar que em um dia qualquer aconteceu uma festa intercastas, que terminou em uma grande orgia, onde ninguém era de ninguém, uma loucura e que depois de um tempo (sei lá quantos) nasceu os filhos desta noite fatídica: os vídeos de internet. No nascimento, considerados bastardos inglórios, cheios de defeito e de péssima qualidade. Mas os bastardinhos foram crescendo, crescendo e um dia (também não sei precisar a data) acordaram tipo uma Gisele, jogando o cabelo e pisando com salto agulha nas outras castas.
E agora com essa cara loira e bela, os membros das outras castas tem se apresentado para conquistar o bastardinho, tentando trazê-lo para o seio da família. Mas os rebeldes crescidos sem educação ou filtro, não estão nem aí e querem mais é curtir a vida sem se preocupar com a sua linhagem. E tem uma galera que se dá muito bem com os vídeos de internet. Eles se reconhecem na sua origem pobre e humilde, que são os parias da televisão de não-ficção/humor. Juntos parecem que eles estão mais fortes e interessantes do que seus “pais puros”. Podem se misturar, mas sobrevivem também sozinhos, cada um no seu mundo.
Com exceção da teledramaturgia, que encontrou seu espaço nessa zona, com as séries da Netflix e seus concorrentes, o resto ainda pena para colocar todo mundo na mesma mesa, se é que isso é possível. E é evidente que entre os mais sofredores está a publicidade. Às vezes dá pena de ver...
E o que mais tem me feito pensar nessa história é a grande dificuldade do mercado publicitário em fazer não-ficção audiovisual, seriada, com formato, contando uma história a partir de um formato para internet ou televisão para seus clientes. Cada vez que sento em uma reunião de agência e escuto as palavras “marca-storytelling-web série-viral” na mesma frase, eu penso: lá vem merda. Dificilmente eu me engano. É que agora os puros precisam se misturar aos parias, se quiserem de verdade criar conteúdo que tenha views, likes e principalmente compartilhamento. Pensar como antes, não vai levar a lugar algum. Os 30 segundos agonizam em coma. Mesmo que esse coma dure 100 anos.

A questão da não-ficção é tão séria que as vezes é muito difícil encontrar profissionais para trabalhar nos formatos. Ou eles estão ocupados ou não existem. Os Festivais ignoram e desprezam a não-ficção/humor. Cursos de não-ficção são raros, mesmo os que existem morrem logo por falta de aluno ou interesse. O Fundo Setorial e a Ancine também torcem seus narizes. Política de desenvolvimento para a não-ficção é pouca. Às vezes rebaixa nota de avaliação. Mas sabe qual é a real? No final do dia, na hora de fechar o caixa é justamente a não-ficção/humor que paga a conta, por ser mais barata, rápida de produzir e com resultados efetivos nesse brinquedinho caro chamado audiovisual.  

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Dá-se um jeito.

Hoje ouvi uma cara contando que estava puto porque teve que pagar uma indenização para uma funcionária que o tinha processado. Não sei que tipo de comércio é. Só sei que tem um caixa. A funcionária em questão tinha sido mandada embora por justa causa porque tinha roubado o caixa do patrão. Durante três meses. A câmera que ficava em cima do caixa estava desligada e então ele não podia provar. Porque se tentasse, iam descobrir que ele, de algum jeito que eu não entendi, mantém um esquema para alterar o caixa, caso a fiscalização passe. “É um jeito de fraudar”. Ele disse. Alto. Em bom som. Como se fosse a coisa mais comum do mundo. E na sequência o assunto andou para o lado da crise. E morte a não sei quem... Botar fogo não sei onde. Porque não sei quem falou na televisão que só vai piorar. É o que mais se escuta. Eu lembrei do Renato Russo: ninguém respeita a constituição, mas todos acreditam no futuro da nação. Que país é esse?  E a única coisa que eu tenho para responder é: não sei. Acho que ninguém sabe. Quem sou eu para responder? Mas, tenho a mais plena consciência que não existe uma resposta só e todas elas não são fáceis de ouvir ou realizar.
Ninguém respeita a constituição. Ninguém no nível geral da coisa. E tudo bem falar alto por aí. Pensei que talvez a gente não tenha noção clara entre o que é permitido por lei, e o que não é, além do básico “não matarás”. Aqui talvez seja o único lugar do mundo onde existe a expressão “essa lei não pegou”. Sempre me perguntei como pode isso? Se é lei. É lei. Mas... dá se um jeito. Dá-se um jeito pra tudo. O  brasileiro aprendeu a dar seus pulos tentando sobreviver.  Com certeza alguém já deve ter escrito sobre isso por aí, ao analisar o baixo nível da nossa educação.
Porém, todavia, contudo, então, chegamos a um momento que mostra claramente não ser mais possível continuar assim. Mas como mudar? Como quebrar a cadeia de vantagens e jeitos tão arraigados em nós? Todo mundo é assim? Sei lá!! Tem hora no Brasil que se você não der um jeito, simplesmente não acontece. Vencer o “sistema brasil” é uma batalha heroica que a gente vive diariamente. Serve de desculpas?? Sei lá!! A vida não é fácil.
Na nossa bandeira está escrito “ordem e progresso”. Nem preciso falar nada dessa frase, porque muito já foi dito,  além da piadas, memes, vídeos, fotos e fatos. Uma vez uma imagem chamou a minha atenção. No lugar do tão ambicioso “ordem e progresso”, um foda-se. Pergunte para qualquer brasileiro qual é o seu sonho? Casa própria? Só se for fora do país. Brasileiro bem-sucedido mora no exterior. Não é um julgamento de quem foi. Não, de jeito nenhum. É  só que se você quer abandonar, e é quase um sentimento-típico-brasileiro, foda-se. As pessoas carregam dentro do seu mais profundo eu um incansável chiado: “esse dia há de chegar, vou largar essa merda”. Cansei de ouvir.... ainda ouço.
Se todo mundo tomasse coragem, seríamos mais de 200 milhões de pessoas, que deixaram para trás 8.514.876 km², sendo que 7.408 km tem vista para o mar. Já pensou? Acho que aí então seríamos a nação mais feliz do mundo. Longe daqui. E o que aconteceria com todo esse pedaço de terra, na Terra? Acho que o resto do mundo encontraria espaço para agir da maneira como sempre viu o Brasil, e a gente se deixou ver, desde a invasão pelos portugueses: exploração das suas riquezas até que tudo sumisse e aqui então fosse engolido pelo Oceano Atlântico e esse “problema-chamado-brasil, enfim desapareceria. Sei que parece sinopse de filme. Total ficção, espero. Porque mesmo em um real apocalipse, isso não vai acontecer. Muita gente pode até ir embora. Mas outro número gigante vai ficar. Pelas mais diferentes razões. Eu vou ficar. Nem falo inglês. Sou tão desgraçada que a língua portuguesa é razão da minha vida. Moro aqui. É a minha casa. Na verdade de todo brasileiro. Eu sou uma pessoa estranha. Sou nacionalista. Vai entender? Gosto do Brasil, de ser brasileira, de morar aqui. Costumo olhar para suas coisas boas, para não esquecer que elas existem. Ultimamente parece que onde quer que você olhe, tem sempre algo te dizendo que aqui é o mais perto do inferno.  E eu sei que é difícil, mas não perdi o orgulho de ser brasileira. Não perdi e não vou perder. Por mais que essa nuvem-negra-entristecida-cansada-raivosa que paira no ar tente me roubar isso. A nação somos nós. Nós. Mais de 200 milhões de pessoas!!! Seria muito bom se a gente encontrasse um caminho para a nação. Longe, bem longe, da atual narrativa nós-eles. O que a gente precisa é saúde, educação, segurança, arte, comida, ciência, trabalho. É um direito nosso, de todo brasileiro. Quando é que vamos começar a discutir o Brasil de maneira clara, honesta e dentro da constituição, mesmo que tenhamos que enfrentar a verdade cruel e o trabalho imenso que precisa ser realizado por todos? Quando vamos começar a olhar para dentro do fundo do nosso coração?


sexta-feira, 25 de setembro de 2015

A sagrada família

Aconteceu que depois de quatro anos, Soraia, que é bióloga, tinha conseguido finalmente entregar a sua tese de doutorado. Não tinha sido fácil principalmente quando precisou adaptar o tema, para as exigências do laboratório de estudos do genoma humano. Ninguém entendia muito bem o que a Soraia fazia. Só que era uma coisa difícil. Naquele dia, Marte, seu regente estava no alto do céu e Vênus em harmonia com Saturno, faziam tudo ter um ar auspicioso, como falou quando ligou para a sua esposa, a Marcela. Elas combinaram de mais tarde encontrar os amigos para uma cerveja e quem sabe aproveitar para ficarem mais próximas. Não estavam bem. A analista financeira, a Marcela, trabalhava muito. E justo naquele dia, Vênus e Saturno se desentenderam para ela. Apareceu uma diferença nas contas do banco onde trabalhava e ela não podia arredar o pé dali, até descobrir onde estava o dinheiro. Soraia ficou brava. De novo a mesma história. Tomou uma cerveja belga a mais, com 18% por cento de álcool. Precisou ir ao banheiro e na saída encontrou o Dudu na porta. E não se sabe ao certo se foi a quarta cerveja belga, Vênus ou Saturno, ou algo engraçado que ele falou e ela riu, voltaram para dentro do banheiro. Trancaram a porta. Soraia esqueceu de Dudu no dia seguinte, mas no fim do mês os enjoos, o atraso na menstruação e “aquele maldito exame de farmácia” comprovaram: estava grávida. Esperou até as duas da manhã, daquele dia em que esqueceu de ler o horóscopo e contou para Marcela. A analista financeira olhou para o relógio e disse a si mesmo que uma mãe de família não poderia chegar em casa àquela hora. E sem querer sentiu-se mãe. Depois quis saber do pai.
– O  Dudu é só um amigo.
- Mas ele precisa saber.
Marcela também quis saber se Soraia amava o Dudu, se ela ia sair de casa, se ia ter a criança. Bom, nada disso aconteceu. O Pedro nasceu com duas mães e um pai. Marcela que odiava o trabalho no banco saiu e abriu uma floricultura. Soraia foi trabalhar em outro laboratório. Trabalhava muito e ainda dava aula na pós-graduação da faculdade. Marcela cuidava do Pedro. Mas Dudu achava que o menino estava muito mimado. E resolveu dar um jeito naquela história: adotou um cachorro. O Pedro, amou o Betoneira, o cachorro. Soraia não ligou muito. Mas todo mundo teve a certeza que Marcela ficou com ciúmes do cachorro. É claro que ela não ia admitir. No domingo, no parque resolveu provar que estava acima desses comentários maldosos daquela família: pediu ao moço do cachorro-quente para tirar uma foto dos cinco e fez questão de segurar o Betoneira no colo. Prometeu a si mesma imprimir aquela foto e colocar na sala de casa.
D.Else tinha três filhos. Duas meninas e um menino. A Márcia era a mais velha, o Naldinho o do meio e a Juliana a mais nova. Seo Ermírio, antes de morrer, vivia chamando a Ju da sua filha prafrentex.  É que a Ju adorava viajar. Antes dos 24 anos, já tinha ido duas vezes para a África e perdido as contas das vezes em que esteve na Europa. Naquele tempo, Ju  estava na Nova Zelândia e Márcia, a advogada, ficou brava com a irmã que não se deu ao trabalho de voltar para o casamento do irmão. Naldinho fez uma cerimônia tão bonita. O pai já não estava presente. Custava ter voltado? Mas a Ju não voltou. Só chegou ao Brasil alguns meses depois e grávida de cinco meses. Não quis falar quem era o pai “pouco importa”. Prometeu fincar raízes para cuidar da Gisele. Márcia, que era louca por sapato, antes da sobrinha nascer já tinha comprado quase todos os tipos que uma criança pode usar. Quando Gisele nasceu tinha botinha, tênis da Nike, sapatilha de lacinho.... A Juliana achava tudo aquilo uma bobagem. Mas, resolveu deixar pra lá. A irmã ajudava com o dinheiro e cuidava da filha. Mas era D. Else quem ficava a maior parte do tempo com a menina. A Ju passou a trabalhar das nove as seis e não conseguia tirar da cara a expressão de “passarinho preso na gaiola” que D. Else tanto lhe pedia. A Marcia colocou a Gisele no balé e as irmãs brigaram. Mas a Gi quis continuar. A Marcia foi promovida no trabalho e para comemorar resolveu comprar para cada uma um sapato. Podiam escolher. D. Else ficou com uma sandália ortopédica, que seu joanete tanto pedia. A Gisele não se conformava que não podia ganhar uma sandália de salto. Mas nesta questão tanto Márcia, quanto Ju concordavam: criança não pode. Gi achou injusto, mas nem adiantou olhar para a avó. Ju escolheu a bota de caminhada que custava uma fortuna: vulcanizada, impermeável e leve. Não se sabe se foi a bota, mas logo depois, a Ju foi chamada para trabalhar novamente na Nova Zelândia, para ser guia em um parque e ajudar estudantes brasileiros. Até a Gi concordou que a mãe era muito infeliz. As duas combinaram que quando Gi soubesse se virar ela ia encontrar com a mãe. Marcia ficou com a guarda da sobrinha. Aquilo deu uma alegria tão grande na advogada que ela comprou uma sandália Jimmy Choo para dar de presente no aniversário de 15 anos da Gisele.  No aeroporto, dessa vez D.Else não chorou, mas prometeu a si mesma que jamais ia ensinar a neta “a se virar”. Na despedida, fizeram uma foto da família para recordação. A moça que passava não entendeu nada. Elas pediram para que fotografasse apenas os pés das quatro mulheres: uma sandália ortopédica, uma sapatilha injusta, um ankle boot de salto alto e uma bota de caminhada.
O Júlio se apaixonou pela Roberta de tal maneira que não se importou com a sua tristeza, a mania de não comer direito e achar que estava sempre gorda. Por um tempo, os dois foram felizes. Júlio não era muito de namorar. O violoncelo e a orquestra municipal tomavam todo o seu tempo. Seus pais, Vera e Ricardo, ficaram felizes de ver o filho saindo, não mais enfurnado em casa, sozinho sem se divertir. Fizeram planos para um casamento. Roberta acabou ficando grávida sem querer. Ela não queria engordar, passou a maior parte da gravidez triste e inconformada. Como muita sorte, Miguel nasceu saudável.
- Aquela desmiolada vai matar meu neto. – Vera estava muito preocupada.
Na saída da maternidade, Miguel foi direto para a casa de Vera. Júlio, ficou muito aliviado, não sabia o que fazer. Queria compor uma música para o filho e Roberta só pensava em emagrecer. Vera e Ricardo cuidaram do Miguel e quando Roberta resolveu mesmo ir embora,  Ricardo construiu um forte-apache para o neto no quintal. A criançada da rua não saia de lá. Como Júlio passava a maior parte do tempo em turnê  com a orquestra, pra facilitar deixou Ricardo com a guarda de Miguel. E no dia de pegar os documentos no cartório,  eles tiraram uma foto da família. Miguel estava vestido de índio. Finalmente convenceu a avó a costurar a roupa que ele tanto queria. Conseguiu que a avó também fizesse uma para o seu melhor amigo, o Carlinhos. E agora que o Miguel foi estudar na Austrália...
– Precisa ser tão longe? – Ricardo se perguntava

Passava as tardes dentro do Fort Apache, com saudades do filho-neto, da esposa falecida e do filho distante. E que Deus abençoe essas e tantas outras Sagradas Famílias. Na luz do Nosso Senhor Jesus Cristo, Amém. 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Cúmplices

(Ficção. Algumas semelhanças com a realidade, mas bem poucas. Identidades preservadas pela própria dignidade da pessoa)
Domingo, perto da meia-noite recebo uma mensagem da distante Inglaterra no celular: “está vendo o Sportv? Campeonato Mundial de Patinação Artística”. Sem lembrar da entediante segunda-feira que se aproxima, pulo da cama desesperada e só consigo pensar no que perdi. Rapidamente, pelo celular, da distante Inglaterra, da terra onde as pessoas fazem mestrado, recebo as atualizações das últimas apresentações, com detalhes nas notas... E aí então entro no reconforte mundo dos saltos-e-piruetas-com-babados-no-gelo. Feliz é aquele que tem uma amiga para dividir o amor pela patinação. Mais feliz ainda é quem tem um amiga para compartilhar suas impressões sobre outro derivado dos pulos-com-fru-fru: filmes de patinação. Afinal são poucas as pessoas no mundo que vão soltar um suspiro ao ouvir: “Um casal quase perfeito”. Clássico... até hoje insuperável...(Disney, me desculpe mas Sonhos no Gelo nunca será “Um casal..., talvez se comparamos com Um casal quase perfeito três (existe!))... Enfim, isso é mais que uma amizade. É quase como ser cúmplice em um crime.
Mais difícil do que encontrar alguém para falar sobre patinação artística, é aguentar sozinha o preconceito por gostar de Alcione. Mas eu não passo por isso... D, assim como eu, também é fã da Marrom (mesmo quando ela aparece vestida de cereja). E podemos compartilhar o momento de cantar (dentro do carro é claro), fazendo um dueto, “garoto, maroto, travesso....”, É  uma alegria inexplicável.... Mas é tão difícil sair desse armário, o risco de bullying é aterrorizador...
L,  divide comigo o amor pelas fontes... e alguma cascatas. Acho lindo. Como L é arquiteta, a gente sonha ganhar na loteria, só para construir uma casa com uma grande, esquisita e chamativa “fonte-elefante”. A título de curiosidade, elefante em casa dá sorte... Enquanto a grana da loteria não vem, ficam espalhados pela casa elefantinhos-de-bisquit-com-espelhinhos-colados... E o ridículo de tudo isso toma horas e horas de boas conversas... principalmente se tiver cerveja no meio. Mas a gente sempre concorda que fonte de respeito é a “Casa da Pedra” do Frank Lloyd...
J, Outra parceira da clandestinidade, é uma pessoa respeitada, principalmente quando o assunto é economia e investimento, que mantém em segredo uma coleção respeitável de Júlia e Sabrina... antigas. “Que delícia para zerar o QI.”... costuma dizer, se desculpando por esse amor bandido.  E por considerar “o torso nu do Capitão Walker, protegendo finalmente Lisa.”, quase Joyce... Sonho um dia escrever um livro desses, e me divirto procurando pseudônimos... Chegamos à conclusão que Dolores Ruas é uma boa opção. Ainda não achei um bom nome para o meu capitão... claro que precisa ser uma história na praia. São os nossos preferidos.... E é melhor eu parar por aqui para não piorar, ou colocar em risco a cumplicidade... São gostos que não tem explicação. Ou lógica. São gostos-duvidosos que brotam de um desastre químico do cérebro. Acontece, sem que se possa fazer nada, com muita gente e é involuntário. Talvez isso explique o ditado  “sapo não anda com cobra”... tem sempre alguém por aí para compartilhar o seu lado Z...



quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Reply na caixa de spam

Caro Zig, sei que a gente já se conhece há algum tempo. Estou acostumada a receber suas mensagens quase todo dia. Sinto que nossa relação tem um “lance”, mas eu não sei se ela é sólida o suficiente para que a gente comece a partilhar as nossas finanças. Tenho muitas dúvidas... Por isso ainda não decidi te mandar meus dados bancários e as minhas senhas. Sei que você já se irritou profundamente com a minha negativa e já tentou pegar na marra. Mas acho que deve ter passado, você continua me escrevendo. Mas dinheiro não é bom para nenhuma relação, atrapalha e além do mais prefiro pensar que você gosta de mim como pessoa, a nível de ser humano, não apenas como uma senha. Bjss e até amanhã.

Fê_molhadinha, querida olha entendo a sua tentativa de provocar em mim sentimentos e paixões até então imagináveis, mas assistindo aos vídeos que me mandou (vi só metade porque não pude colocar o número do meu cartão crédito para ver o resto), acho que sou muito careta para você. É sou... desculpa, mas tenho a sensação que se entrar na sua posso não chegar viva ao final da tal noite de loucuras que você promete. Por favor, não pense que acho você uma assassina, tenho certeza da sua paixão por mim, jamais duvidei, é que sinto não ter preparo físico para aguentar até o final. E... preciso te dizer uma coisa: aquele seu amigo vestido de diabinho, me dá muita vontade de rir. Já te disse também que tenho problemas com peito... não gosto muito. Então, vamos parar por aqui. Não sofra, vai ser melhor para nós duas. O tempo nos dirá. Beijos.

Menino_da_porteira, vou ser direta com você: não vou na sua festa! Por favor, não se sinta ofendido. É que o meu conhecimento de sertanejo para em “Fogão à Lenha” com Chitãozinho e Xororó e sei a letra de “Entre tapas e beijos”. Mas, pelo que você descreve, o seu evento é bem mais moderno, já que o som é o “mais puro sertanejo universitário”... Sinceramente, também não consigo me imaginar na “grande fila de cowboys e cowgirls gastando a sola da bota até o sol raiá.” Amigo, se você estiver a fim de um cinema, um jantarzinho, ficar na fila da paleta mexicana, me escreve. A gente marca. Bjss.

Mirella, não tenho interesse em comprar “pó de Goji Vita para emagrecer”. Admiro a Ivete Sangalo por ela usar, mas não é para mim. Obrigada.

Padre Moa, obrigada pelas suas orações e sermões. Mas como o senhor exige seguir as riscas os mandamentos da Santa Igreja Católica, não tenho condições de ser sua seguidora. Por favor veja o outro e.mail que lhe mandei falando o que penso sobre família, todo tipo de família, contracepção e divórcio. Atenciosamente.

Lúcifer, nesse momento não tenho interesse em participar de nenhuma seita satânica. Pela sua insistência tive que te bloquear. Espero que entenda. Sem ressentimentos.

Lulu, adorei suas flores de biju! Pena que seu site está fora do ar. Da próxima eu compro. Parabéns pelo seu trabalho. Bjss

(depois eu continuo faltam só 1093 mensagens)